O Museu Sensível nas obras de 132 mulheres

Esta é a maior exposição já realizada pela instituição com obras produzidas por 132 artistas mulheres.

 

Roamnita Disconzi faz parte da exposição Museu Sensível

 

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul abre dia 19 de dezembro, segunda-feira  às 19 horas a exposição O Museu Sensível: uma visão da produção de artistas mulheres na coleção do MARGS. A exposição mostrará a obra de 131  artistas mulheres com obras exclusivamente da coleção do museu, a grande maioria delas nunca antes exibidas pela instituição, assim como obras consideradas canônicas já conhecidas do grande público localizadas no período entre meados do século 19 e a contemporaneidade.

Trata-se de um acontecimento histórico para a trajetória do MARGS. Até hoje não houve uma exposição sobre a coleção do Museu de Arte do Rio Grande do Sul com este tema e nenhuma mostra no Rio Grande do Sul com um arco histórico desta envergadura que tivesse como abordagem exclusivamente a produção de mulheres.

 

Obras de Regina Silveira também presentes na exposição

 

A disposição das obras foi pensada dentro de uma concepção do museu como um sistema reprodutivo feminino onde o foco será o renascimento da criatividade para visibilidade pública, do conhecimento e da visualidade como potencial comunicativo. Metaforicamente falando, saídas da escuridão da reserva técnica do museu, estas obras são trazidas à luz para o espaço de exposição.

O Museu Sensível pretende ser uma exposição crítica acerca da posição ocupada pela produção artística realizada por artistas mulheres na coleção do MARGS, considerando a posição que o Museu tem adotado ao representar a obra destas artistas dentro do contexto museológico brasileiro. Nesse processo o museu busca ainda avaliar sua própria política de aquisição de obras com vistas a reparar eventuais lacunas à luz dos desdobramentos históricos que muitas vezes negligenciaram tal produção em um universo artístico que no mais das vezes privilegia a obra de artistas do sexo masculino.

Em tempos em que teorias feministas vem questionando a posição das obras canônicas como tendo privilegiado um modelo eurocêntrico de formação do cânone (e portanto baseado na concepção de uma sujeito branco, protestante, masculino e euro-americano) esta exposição busca promover uma avaliação da formação daquela que pode ser considerada a mais importante coleção estatal do Rio Grande do Sul. A exposição busca também investigar as correlações entre a formação das cadeias produtivas da sociedade urbano-industrial e as condições históricas que possibilitaram ou reprimiram a constituição de sensibilidades estéticas criadas pela produção das mulheres no âmbito do sistema artístico dentro do qual tais coleções se formaram.

Karin Lambrecht está entre as 131 expositoras

De que forma a obra das mulheres se vê representada na coleção do MARGS, por que meios  (pintura, escultura, tapeçaria, gravura, etc) assinalam da mesma forma o grau de representação que a coleção demonstra em relação a produção destas artistas, visto que a história da arte se encarregou de definir este ou aquele meio de produção como tendo maior ou menor valor.  A exposição irá tornar evidente os diversos movimentos administrativos, políticas de acervo e definições de escolhas que definiram uma determinado política para  a aquisição de obras, que em última análise determinou um espaço na coleção do MARGS para a arte produzida por artistas mulheres. O Museu Sensível pode ser considerada assim a primeira exposição autocrítica que o museu realiza.

O modelo curatorial utilizado

Com curadoria do diretor do MARGS Gaudêncio Fidelis, a exposição adotará novamente um modelo não cronológico de exposição de obras, visto que o que está em questão não é a prioridade histórica (que artista fez o que primeiro), mas a igualdade entre elas, desfazendo ao mesmo tempo uma perspectiva linear de construção da lógica de formação das hierarquias entre diferentes gerações e estilos.

O modelo, que já foi adotado na exposições anteriores do MARGS desta gestão, propiciando que o visitante possa percorrer o trajeto das obras de uma forma não linear, possibilitando assim que este construa suas próprias vias interpretativas estabelecendo novas relações conceituais e artísticas dentro do contexto da exposição.

A exibição das obras será realizada como forma de quebrar pressupostos canônicos que fundamentam as hierarquias entre obras, definindo-as como tendo maior ou menor importância em uma escala de valores estéticos, culturais e históricos. Os procedimentos curatoriais adotados irão propor ao visitante possíveis pistas para que este, ao visitar a exposição  e ao fazer uma transição de obra para obra, possa extrair dela a melhor experiência no espaço do museu, construído suas próprias decisões interpretativas.

 

o Rabino de Paulina Eizirik no Museu Sensível do Margs

 

A fundamentação teórica da exposição

O Museu Sensível pode ser considerada a primeira exposição de caráter feminista da história do MARGS visto que se trata justamente de reavaliar a condição atual da coleção do museu no que se refere a uma justa e adequada representação da obra de artistas mulheres, com o objetivo último de posicionar a instituição como um organismo crítico em sintonia com a responsabilidade pública que a formação de uma coleção estatal carrega. Não se pode negar que questões de gênero permanecem fundamentais para o entendimento das correlações entre arte e cultura e destas como a política institucional. Assim uma instituição que queira refletir sobre seu papel dentro do processo de institucionalização da produção artística não pode deixar de adotar procedimentos que reavaliem os procedimentos de seleção, categorização e canonização de obras que esta colabora para colocar em movimento.

O Museu Sensível: uma visão da produção de artistas mulheres na coleção do MARGS é uma iniciativa do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, órgão da Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Estado do RS, com organização e produção do museu, realizada com o apoio institucional da Secretaria de Política para as Mulheres (SPM) do Governo do Estado e do Coletivo Feminino Plural (uma organização autonoma do movimento feminista, com 16 anos de existência). A exposição conta com o apoio adicional da AAMARGS (Associação dos Amigos do MARGS), Arteplantas, Celulose Sulriograndense e Tintas Killing.

SERVIÇO

O MUSEU SENSÍVEL
Data: 19 de dezembro até 18 de março
Hora: das 10h às 19h
Local: Pinacoteca e Galerias Inferiores do MARGS- Praça da Alfândega s/nº- Porto Alegre-RS